Inventava seu rosto na voz. E pelo medo de cair, veio o calor corajosamente guardado no bolso. E então, saio de trás da minha incoerencia e da raiva presente à tona em alguns momentos para te amar mais uma vez. Amar você aqui, quietinha, involuntariamente e sem motivos. Dar ao corpo o devido peso da sua falta. Arrancar da cama, todos os dias, a saudade de conceber com o vício. Nossa falta de começo, de meio e de fim. Os leves pedaços dispersos nas letras, poemas e planos em cima de nossa contraditória inexistência. E eu revivo você congelando sua presença em uma fração da emoção a qual não me permito dizer. Aí, me cobro nesses instantes, até da distância que me fazia te enxergar do outro lado da sala, quando nem pulmões, mãos, receios e pernas eram capazes de me negar velar teu corpo todas às noites. E a saudade mostrando-se sempre mais poderosa do que minhas teorias e minha postura meio madura.
Hoje, não recolho minhas saudades, permaneço estática, parando o tempo, me aconchegando em nossas trocas de palavras para te amar mais uma vez. Amar com o inconformismo de quem não possui as rédeas da própria vontade. Amar de novo. "Amar você aqui, quietinha e involuntariamente." Amar sua ingenuidade cabivel na paixão. Amar sua insegurança misturada ao zelo de quem se quer bem. Amar sua ansiedade e o talento para transformá-la em arte. Amar seus carinhos e os trejeitos sacanas nas madrugadas. Amar sua entrega sempre maior do que a minha. Amar só pelo tempo em que duram estas letras e frases, sem arrependimentos ou fugas. Consumindo você da ponta da língua aos meus pés covardes. Burlando minhas regras pretendidas para deitar ao teu lado novamente.
Até aqui, cada palavra nossa sendo ou não em vão, teve uma carga essencial, preencheu muito além de textos e inspirações poéticas. Formou toda uma filosofia expandida em mim sempre que me permito te amar mais uma vez.
domingo, 11 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Frágil e Permanente
E você toca o meu rosto enquanto digo o que desejo nas entrelinhas do teu corpo e suor. E assim, a gente vê nos quatro cantos deste quarto, paredes imensas e finas. Apenas aguardando a consumação de mais esta nossa ilusão tardia no meio da manhã.
No quarto ao lado, apenas o cheiro de um barulho atravessado, e aqui no nosso, o perfume atropelado de pecados e ternura. Eu sorria pra nós e repetia o que mais causava prazer: “Diante de nossa música e poesia, nenhum de nossos pensamentos soa vulgar”.Só pra ouvir você sorrir de canto e dizer: “Quando fazemos amor, tudo se cala de forma frágil e permanente”.
E nada se acaba quando erguemos ruas e desbravamos nossas próprias possibilidades de caminhos. Vamos em coro travando nossos versos sem noção até a calçada do próximo beijo. E neste rumo, já nem sei o que dizer quando te olho e me reconheço. O intuito é sempre o de criar nossa própria realidade alternativa dentro da boca.
Mergulho em uma alegria gratuita só pra depois recomeçar a andar.
No quarto ao lado, apenas o cheiro de um barulho atravessado, e aqui no nosso, o perfume atropelado de pecados e ternura. Eu sorria pra nós e repetia o que mais causava prazer: “Diante de nossa música e poesia, nenhum de nossos pensamentos soa vulgar”.Só pra ouvir você sorrir de canto e dizer: “Quando fazemos amor, tudo se cala de forma frágil e permanente”.
E nada se acaba quando erguemos ruas e desbravamos nossas próprias possibilidades de caminhos. Vamos em coro travando nossos versos sem noção até a calçada do próximo beijo. E neste rumo, já nem sei o que dizer quando te olho e me reconheço. O intuito é sempre o de criar nossa própria realidade alternativa dentro da boca.
Mergulho em uma alegria gratuita só pra depois recomeçar a andar.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Dois Verbos Mudos
Permaneci deitada olhando entre os espaços dos travesseiros e seu rosto. Ali, numa só pose reparei todos os festivais do teu corpo.
Havia um copo de café já frio em cima da mesa de cabeceira e nossas roupas todas jogadas no chão, a lâmpada apagada e minhas retinas ainda acesas. Eu olhei pra você querendo te dizer alguma coisa sobre a pontualidade das palavras e o sol que invadia as cortinas. Mas o eco entre a boca e as manhãs nascidas me fizeram fingir dormir mais um pouco. Eu lançava minha respiração na sua boca e a sua vinha na direção da minha. Absolutamente integrados e minha consciência pesando em cima desta nossa liberdade magra. Aí, você se levanta pra acender seu cigarro e falar todas as possibilidades maciças de suas frases e planos, a voz branda cai por cima de mim e o jeito das tuas mãos denunciam a similaridade de todos os homens. Um mantra incompleto reafirmado nos movimentos intranquilos das bocas e línguas. As coisas recomeçadas em si mesmas e nossas pernas tremendo. Dois mundanos com seus corpos de frente e a vontade expandindo em nosso acordo corporal. E o vício confundindo até nossas crenças. Parecíamos não olhar para lugar nenhum, sem memórias ou argumentos sufocamos na vontade de apenas continuar.
Nos despimos outra vez de tudo, os olhos fechando e nossa cena dispensada.
Meu cabelo preso e tuas mãos em minhas costas, nossos olhos sorrindo e a cama inteira constatando que somos dois verbos mudos.
Havia um copo de café já frio em cima da mesa de cabeceira e nossas roupas todas jogadas no chão, a lâmpada apagada e minhas retinas ainda acesas. Eu olhei pra você querendo te dizer alguma coisa sobre a pontualidade das palavras e o sol que invadia as cortinas. Mas o eco entre a boca e as manhãs nascidas me fizeram fingir dormir mais um pouco. Eu lançava minha respiração na sua boca e a sua vinha na direção da minha. Absolutamente integrados e minha consciência pesando em cima desta nossa liberdade magra. Aí, você se levanta pra acender seu cigarro e falar todas as possibilidades maciças de suas frases e planos, a voz branda cai por cima de mim e o jeito das tuas mãos denunciam a similaridade de todos os homens. Um mantra incompleto reafirmado nos movimentos intranquilos das bocas e línguas. As coisas recomeçadas em si mesmas e nossas pernas tremendo. Dois mundanos com seus corpos de frente e a vontade expandindo em nosso acordo corporal. E o vício confundindo até nossas crenças. Parecíamos não olhar para lugar nenhum, sem memórias ou argumentos sufocamos na vontade de apenas continuar.
Nos despimos outra vez de tudo, os olhos fechando e nossa cena dispensada.
Meu cabelo preso e tuas mãos em minhas costas, nossos olhos sorrindo e a cama inteira constatando que somos dois verbos mudos.
domingo, 27 de setembro de 2009
O Timbre
Os lábios agora quase disseram. Nem ódio ou mágoa, apenas um grande vazio nos corredores. E a imaginação tão real perseguia seu cheiro na tentativa de dispersar saudades.Os dias explodindo em cada fresta torturando em protesto a latente vontade de desistir.A fé devia estar escondida em algum canto do quarto. Percebia uma inevitável volta, insatisfeita e faminta.Entre nós, cada um em uma parte de existência da qual não se compreende. E assim mesmo, o que mais fazia falta era sentir o corpo estremecido com a vibração de sua voz.Teu timbre era uma aula. Entranhado em cada poro meu.A garganta queimando enquanto vivo em muitos lugares na tentativa de parar o que não termina por dentro. Descobrindo que não há verdade além do estraçalhado aqui e lá.E o fantasma ainda sussurrando em delírio no corredor. A voz distante marcada avulsa. Projetando uma simplicidade que dói. Nossas conversas entrecortadas e mais uma vez desconhecidas.Ao longo da noite, extremos que estranhamente me recordo. E se você não compreendesse o que escrevo, esconderia sob os lençóis o desejo pintado por todo o corpo. E então saberia.Se fosse pra exprimir a verdade maior de dentro do peito, veria que todos estão tão perdidos quanto nós.Estou humana, mastigo nossas sementes para que a lembrança permaneça.
A Nota Mais Aguda
Ainda assim, são estas palavras dispostas ao afeto que guardam o eco da tua respiração por cima dos meus cabelos bagunçados. Te abraço com a vontade apertada nos olhos. Estamos mornos e com uma embriagues catastrófica. E o receio de não estar fazendo as coisas certas que nos colavam os pés. Recebemos a marca daqueles que recuperam o som e a música. E foi com Buarque que vibramos nossas indecisões. Suspiros e lágrimas desabando como se faz com a melhor bobagem utópica presente na ingenuidade e paixão. Meu corpo com o teu escalando as paredes das tuas costas nuas. Dois loucos queimando por cima das unhas. Adornei tua boca com licor e poesia. E você repousando em vultos e canções populares.
E no leito, toda sensação possível era a de sermos duas poesias soltas nesta cidade.
Uma parafernália poética desdobrando o próprio tempo pelo teu, e meu ombro.
Esta nossa estadia sumindo por dentro do espelho.Cortando abajours, cortinas e colchões.
A nota mais aguda do teu corpo tem gestos próprios. Deslocamos e reinventamos o nível do corpo com mais um poema inaugural.
E no leito, toda sensação possível era a de sermos duas poesias soltas nesta cidade.
Uma parafernália poética desdobrando o próprio tempo pelo teu, e meu ombro.
Esta nossa estadia sumindo por dentro do espelho.Cortando abajours, cortinas e colchões.
A nota mais aguda do teu corpo tem gestos próprios. Deslocamos e reinventamos o nível do corpo com mais um poema inaugural.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
O Retiro de Nancí
Onze horas. Sentada na sala, a poltrona começava a ficar desconfortável. Nancí levanta-se em direção a varanda para colocar o lixo pra fora. Era um dos poucos momentos em que saia de casa. Passava dias, às vezes semanas sem nem mesmo ir até a porta. Não gostava muito das pessoas, e quase sempre tinha a sensação de que a recíproca era verdadeira.
Morava em uma cidade pequena, com poucos habitantes. E justamente por isso, os comentários maldosos a respeito de sua auto exclusão eram rotineiros. Uns diziam que ela havia ficado assim após o suicídio de sua única filha, outros, por causa do abandono de seu marido. Todos em comum acordo espalhavam o boato de que sua família era amaldiçoada.
Nancí era uma senhora beirando os setenta anos. Decidira ausentar-se da vida em sociedade após as sucessivas perdas que sofrera. Vivia sozinha, apenas ela e sua cadela “Samantha”. Saía de casa para fazer estritamente o necessário, pagar algumas contas, e para abastecer a dispensa. Toda à noite, sentava-se à mesa e servia-se com uma pequenina porção de arroz integral e carne, sempre deixando um pouco separado para Samantha que prontamente recusava, e aos insistentes brados de Nancí comia também.
De manhã, era acordada pelo barulho das pedras que as crianças jogavam em sua janela divertidamente. Nancí odiava aqueles pequenos demônios com toda a sua força e mais ainda suas mães que permitiam tamanho importuno.
- Demônios! Vocês são filhos do cão! E as mães de vocês umas putas, por não os terem dado educação! Se eu pudesse eu...Eu... Ahhhh saiam já da minha porta!
Ao que as crianças retrucavam:
- Bruxa! Minha mãe disse que você tem pacto com o dêmo!
Nancí sabia o quanto sua vida reservada e exclusa chamava a atenção de todos que ali moravam. Mas ela simplesmente sabia que gostaria de passar o resto de seus dias vivendo desta forma. E mantinha diariamente a ordem de seus afazeres. Tudo minuciosamente repetido a cada novo dia. Acordava, sentava-se demoradamente na ponta da cama, tomava seu banho e varria o chão. No almoço e no jantar a mesma pequena porção de arroz integral juntamente com a carne conservada durante meses no congelador e dividida em partes iguais para durar pelo máximo de tempo que pudesse. Afagava Samantha, e assistia a quase toda a programação da tv. As terças e quintas era quando saía já tarde da noite para colocar o lixo pra fora. Raramente os moradores da cidade a viam em outras circunstâncias.
Em uma certa terça-feira Nancí não saiu para colocar o lixo para fora, também não fora na quinta. Como sua rara presença em público era notada, alguns vizinhos começaram a questionar o sumiço quase que por completo. Teria se mudado? Decidira enclausura-se de vez?
A vizinha do lado, uma das poucas pessoas que Nancí ainda tinha o hábito de cumprimentar quando saia, notou que as luzes continuavam acesas há dias sem serem apagadas e que aparentemente a tv de sua sala estava ligada. Samantha latia desesperadamente nos dois primeiros dias e agora cessara com seus latidos.
Um cheiro forte quase que insuportável vinha da direção da casa de Nancí quando os moradores dos arredores decidiram-se por chamá-la na tentativa de verificar o ocorrido.
Chamaram por horas sem resposta. A vizinha tentou telefonar para sua casa, mas o notou que o telefone estava ocupado. Percebendo os latidos fracos de Samantha, os vizinhos decidiram-se por pular o muro da casa e entrar para ver se algo havia acontecido.
Ao entrar no quintal, o cheiro pútrido aumentara fortemente, olharam pela janela, mas as cortinas tampavam quase toda a vista, notava-se da sala apenas a tv ligada.
Um dos vizinhos arrombou a janela da sala com alguns solavancos conseguindo entrar na casa. Quando entrou deparou-se com a cena mais chocante que já presenciara:
O corpo de Nancí estirado no chão em estado de putrefação, as mãos esticadas na direção do telefone, e o corpo soltando líquidos fétidos e a pele abrindo-se quase que por completo, enquanto Samantha comia parte de sua perna direita.
O homem cambaleou em direção a cadela, afastando-a do corpo, tentando tapar as narinas do forte cheiro que impregnava a sala.
A cidade em alvoroço, uma multidão na porta de Nancí aguardando os legistas retirarem o corpo. Todos alimentando a curiosidade mórbida de saber a causa do acontecido.
Saindo da casa, o legista pergunta ao seu parceiro:
-Qual a causa?
- Provavelmente tentou telefonar para pedir ajuda, mas não conseguiu a tempo, e a cadela trancada em casa e sem se alimentar comeu parte da perna dela. O melhor você não sabe... O jantar ainda estava sob a mesa... Arroz integral e uma pequena porção de carne...
Carne humana! Constatamos quando abrimos o congelador e vimos pedaços cortados de mãos, orelhas, coxas, pedaços de face e tudo mais... Na porta da geladeira estava o cardápio diário: segunda: parte da coxa de meu querido marido, terça: o último dedo da mão esquerda de meu querido marido e assim por diante...
- Caralho cara! Sério isso? E por que essa louca fez isso? Qual a causa da morte?
- Infidelidade meu caro... O marido a traía constantemente, pelo que contaram alguns vizinhos próximos, ela o matou antes mesmo de ele a deixar e o conservou durante meses.
- Que merda! Mas então cara, fala!Qual a causa da morte?
- Hehe. Os exames indicam uma reação do organismo dela a carne... O freezer apresentava um defeito deixando a carne apodrecer quase que por completo, ela comia mesmo assim sem notar... Digamos que foi uma forte indigestão...Hehe.
Morava em uma cidade pequena, com poucos habitantes. E justamente por isso, os comentários maldosos a respeito de sua auto exclusão eram rotineiros. Uns diziam que ela havia ficado assim após o suicídio de sua única filha, outros, por causa do abandono de seu marido. Todos em comum acordo espalhavam o boato de que sua família era amaldiçoada.
Nancí era uma senhora beirando os setenta anos. Decidira ausentar-se da vida em sociedade após as sucessivas perdas que sofrera. Vivia sozinha, apenas ela e sua cadela “Samantha”. Saía de casa para fazer estritamente o necessário, pagar algumas contas, e para abastecer a dispensa. Toda à noite, sentava-se à mesa e servia-se com uma pequenina porção de arroz integral e carne, sempre deixando um pouco separado para Samantha que prontamente recusava, e aos insistentes brados de Nancí comia também.
De manhã, era acordada pelo barulho das pedras que as crianças jogavam em sua janela divertidamente. Nancí odiava aqueles pequenos demônios com toda a sua força e mais ainda suas mães que permitiam tamanho importuno.
- Demônios! Vocês são filhos do cão! E as mães de vocês umas putas, por não os terem dado educação! Se eu pudesse eu...Eu... Ahhhh saiam já da minha porta!
Ao que as crianças retrucavam:
- Bruxa! Minha mãe disse que você tem pacto com o dêmo!
Nancí sabia o quanto sua vida reservada e exclusa chamava a atenção de todos que ali moravam. Mas ela simplesmente sabia que gostaria de passar o resto de seus dias vivendo desta forma. E mantinha diariamente a ordem de seus afazeres. Tudo minuciosamente repetido a cada novo dia. Acordava, sentava-se demoradamente na ponta da cama, tomava seu banho e varria o chão. No almoço e no jantar a mesma pequena porção de arroz integral juntamente com a carne conservada durante meses no congelador e dividida em partes iguais para durar pelo máximo de tempo que pudesse. Afagava Samantha, e assistia a quase toda a programação da tv. As terças e quintas era quando saía já tarde da noite para colocar o lixo pra fora. Raramente os moradores da cidade a viam em outras circunstâncias.
Em uma certa terça-feira Nancí não saiu para colocar o lixo para fora, também não fora na quinta. Como sua rara presença em público era notada, alguns vizinhos começaram a questionar o sumiço quase que por completo. Teria se mudado? Decidira enclausura-se de vez?
A vizinha do lado, uma das poucas pessoas que Nancí ainda tinha o hábito de cumprimentar quando saia, notou que as luzes continuavam acesas há dias sem serem apagadas e que aparentemente a tv de sua sala estava ligada. Samantha latia desesperadamente nos dois primeiros dias e agora cessara com seus latidos.
Um cheiro forte quase que insuportável vinha da direção da casa de Nancí quando os moradores dos arredores decidiram-se por chamá-la na tentativa de verificar o ocorrido.
Chamaram por horas sem resposta. A vizinha tentou telefonar para sua casa, mas o notou que o telefone estava ocupado. Percebendo os latidos fracos de Samantha, os vizinhos decidiram-se por pular o muro da casa e entrar para ver se algo havia acontecido.
Ao entrar no quintal, o cheiro pútrido aumentara fortemente, olharam pela janela, mas as cortinas tampavam quase toda a vista, notava-se da sala apenas a tv ligada.
Um dos vizinhos arrombou a janela da sala com alguns solavancos conseguindo entrar na casa. Quando entrou deparou-se com a cena mais chocante que já presenciara:
O corpo de Nancí estirado no chão em estado de putrefação, as mãos esticadas na direção do telefone, e o corpo soltando líquidos fétidos e a pele abrindo-se quase que por completo, enquanto Samantha comia parte de sua perna direita.
O homem cambaleou em direção a cadela, afastando-a do corpo, tentando tapar as narinas do forte cheiro que impregnava a sala.
A cidade em alvoroço, uma multidão na porta de Nancí aguardando os legistas retirarem o corpo. Todos alimentando a curiosidade mórbida de saber a causa do acontecido.
Saindo da casa, o legista pergunta ao seu parceiro:
-Qual a causa?
- Provavelmente tentou telefonar para pedir ajuda, mas não conseguiu a tempo, e a cadela trancada em casa e sem se alimentar comeu parte da perna dela. O melhor você não sabe... O jantar ainda estava sob a mesa... Arroz integral e uma pequena porção de carne...
Carne humana! Constatamos quando abrimos o congelador e vimos pedaços cortados de mãos, orelhas, coxas, pedaços de face e tudo mais... Na porta da geladeira estava o cardápio diário: segunda: parte da coxa de meu querido marido, terça: o último dedo da mão esquerda de meu querido marido e assim por diante...
- Caralho cara! Sério isso? E por que essa louca fez isso? Qual a causa da morte?
- Infidelidade meu caro... O marido a traía constantemente, pelo que contaram alguns vizinhos próximos, ela o matou antes mesmo de ele a deixar e o conservou durante meses.
- Que merda! Mas então cara, fala!Qual a causa da morte?
- Hehe. Os exames indicam uma reação do organismo dela a carne... O freezer apresentava um defeito deixando a carne apodrecer quase que por completo, ela comia mesmo assim sem notar... Digamos que foi uma forte indigestão...Hehe.
Argumentações de Uma Poesia Sem Fim
Não me recordo quando tomamos as rédeas de uma vida que já não era mais só nossa. Mas ainda lembro o gosto da angústia que sentia quando me deparava com a sensação iminente de já não fazer mais parte da sua. Era aí que eu fingia não estar sentindo o incômodo latente de estar a cada dia a perdendo mais. Nem as nossas palavras e confissões de afeto de outrora nos sensibilizavam na tentativa de nos dar mais uma chance. Você em sua mágoa e eu em minha orgulhosa maturidade. Me pegava relendo nossos e-mails e textos na busca de entender os motivos de minha desistência ou covardia. E nem assim, conseguia a coragem de pegar o telefone para que fossem feitos os devidos esclarecimentos, talvez, nem mesmo você quisesse que assim eu o fizesse, tamanha raiva declarada que estava sentindo. Foi aí que lembrei de todas as promessas mútuas bem como dos projetos e as mil afinidades, e me veio juntamente com este, a pequena pontada de dor por abrir mão de tudo que poderia estar nos aguardando.
Nem eu mesmo sei se no desespero desmedido de ter uma atitude madura e serena poderia estar perdendo a mulher da minha vida.
Nada mais antiquado do que um homem nostálgico, e era exatamente assim que me sentia, infinitamente cultuando o saudosismo de um relacionamento estabelecido e fincado em retinas virtuais.
Desconsiderava cada sintoma, na ânsia de gravar apenas nossas conversas, onde erramos, o que os dois estariam perdendo separados e o que estariam ganhando com o distanciamento.
As perdas e ganhos só aumentavam o vazio de saber que não está se lucrando quase nada, tamanha estagnação do curso dos dias sem quem se quer por perto.
Procurava em outras mulheres o gosto, o cheiro, a voz daquela que não teria ao menos tocado. E mesmo assim, nada se comparava ao que fora projetado por todas as expectativas de minha imaginação.
Tanta afinidade, tanto sentimento se desfazendo dia a dia. Acumulando a insegurança e a dúvida de imaginar qual dos dois seria o primeiro a se apaixonar novamente. As horas arrastadas, a vida sonoramente empurrada de qualquer jeito na agonia de desejar que um dos dois se envolvesse logo para dar fim ao arsenal de possibilidades levantadas paralelamente a cada nova pessoa que se aproximava.
Provavelmente, haveria uma tristeza aliviada por saber que ali não existiria mais volta.
E ainda assim a dúvida de como teria sido se os dois tivessem se permitido aquela chance.
Talvez, o amor permanecesse fragmentado em cada poesia e texto feito nos momentos em que se amaram. Talvez, o amor simplesmente acabasse na descoberta de um novo afeto, mas provavelmente, o amor ficaria preso aos textos, poemas e poesias escritas na certeza de que ali estaria a grande obra prima de suas vidas. Algo difícil de ser contestado ou vivido novamente, simplesmente pelo fato de ser: “Uma poesia sem fim”.
Nem eu mesmo sei se no desespero desmedido de ter uma atitude madura e serena poderia estar perdendo a mulher da minha vida.
Nada mais antiquado do que um homem nostálgico, e era exatamente assim que me sentia, infinitamente cultuando o saudosismo de um relacionamento estabelecido e fincado em retinas virtuais.
Desconsiderava cada sintoma, na ânsia de gravar apenas nossas conversas, onde erramos, o que os dois estariam perdendo separados e o que estariam ganhando com o distanciamento.
As perdas e ganhos só aumentavam o vazio de saber que não está se lucrando quase nada, tamanha estagnação do curso dos dias sem quem se quer por perto.
Procurava em outras mulheres o gosto, o cheiro, a voz daquela que não teria ao menos tocado. E mesmo assim, nada se comparava ao que fora projetado por todas as expectativas de minha imaginação.
Tanta afinidade, tanto sentimento se desfazendo dia a dia. Acumulando a insegurança e a dúvida de imaginar qual dos dois seria o primeiro a se apaixonar novamente. As horas arrastadas, a vida sonoramente empurrada de qualquer jeito na agonia de desejar que um dos dois se envolvesse logo para dar fim ao arsenal de possibilidades levantadas paralelamente a cada nova pessoa que se aproximava.
Provavelmente, haveria uma tristeza aliviada por saber que ali não existiria mais volta.
E ainda assim a dúvida de como teria sido se os dois tivessem se permitido aquela chance.
Talvez, o amor permanecesse fragmentado em cada poesia e texto feito nos momentos em que se amaram. Talvez, o amor simplesmente acabasse na descoberta de um novo afeto, mas provavelmente, o amor ficaria preso aos textos, poemas e poesias escritas na certeza de que ali estaria a grande obra prima de suas vidas. Algo difícil de ser contestado ou vivido novamente, simplesmente pelo fato de ser: “Uma poesia sem fim”.
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